O Rio Piquiá

RESISTÊNCIA EM PIQUIÁ DE BAIXO:

Banho do Quarenta, 2024.
Foto: Cleidiane Fernandes
Rio Piquiá, no fundo a BR-222 e EFC visíveis, 2024.
Foto: José Carlos Almeida.

A água, antes limpa e cristalina, começou a ser utilizada para os processos industriais, como o resfriamento dos fornos das siderúrgicas. No entanto, essa água, após ser usada nas atividades industriais, é devolvida ao rio sem o tratamento adequado, o que contribui para a contaminação da água e afeta gravemente a qualidade do ambiente local. Como resultado, o rio, que antes era um lugar de lazer e subsistência, deixou de ser atrativo para os banhistas e passou a prejudicar diretamente as famílias que dependiam do turismo gerado pela sua água limpa.

Ela ainda se lembra de locais específicos, como o Banho do Areão, onde a areia abundante tornava o banho ainda mais prazeroso. “Era muito bom da gente tomar banho, lavar roupa, lavar vasilha, a gente fazia tudo”, afirma, com saudade de uma época em que o rio não estava contaminado.

Outro local que ela cita, conhecido como Maria Braz, mais ao fundo, também já chegou a ser utilizado para essas atividades cotidianas, mas hoje está tomado pelo mato, distante da vivência que ela conheceu. Para ela, a região do Banho do Quarenta era, de fato, um local de beleza natural, mas também de certo perigo. “A água era muito limpa, muito boa, mas não tinha como a gente ficar lá porque caía pedra, caía alguma coisa lá de cima da ponte”, lembra dona Bela, refletindo sobre as mudanças que a construção da Estrada de Ferro Carajás trouxe à paisagem local.

Estrada de Ferro Carajás em Piquiá de Baixo.
Foto: José Carlos Almeida.
Jovem morador de Piquiá mostra um peixe que acabou de pescar no Rio Piquiá, 2023.
Foto: José Carlos Almeida.

“Hoje não é possível usar a água, pois existem muitos poluentes, além de que a agricultura aqui no bairro desapareceu com a chegada das empresas”, lamenta dona Bela. Sua fala demonstra como as indústrias não só afetaram a saúde da população, mas também destruíram os meios de subsistência que dependiam diretamente dos recursos naturais da região.

Trem da Vale passando com vagões abertos.
Foto: José Carlos Almeida.
Vista aérea das siderúrgicas em Piquiá, com o rio ao fundo e entre as indústrias siderúrgicas.
Imagem: José Carlos Almeida.

Essa transformação no bairro e nos recursos naturais da comunidade foi resultado direto da instalação das indústrias na região. De acordo com a advogada e assistente social vinculada à Associação Justiça nos Trilhos (JnT), Valdênia Paulino Lanfranchi, as empresas que se instalaram em Açailândia, principalmente as siderúrgicas, são responsáveis pelos impactos socioambientais que devastaram a qualidade de vida dos moradores de Piquiá de Baixo. Ela explica que, inicialmente, a primeira grande instalação foi a Gusa Nordeste, mas logo as carvoarias também chegaram, agravando ainda mais os problemas locais. “Na época, não havia somente as siderúrgicas. Nós tínhamos também as carvoarias, o que foi um problema muito sério”, afirma Valdênia, que trabalhou com a comunidade durante os últimos cinco anos.

Embora as carvoarias tenham sido desativadas, as siderúrgicas permanecem e continuam a afetar a vida das famílias.

Ela enfatiza que a situação piorou com o transporte de ferro e outros materiais nos trens da Vale, que transitam com os vagões a céu aberto, 24 horas por dia. “Os trens transitam sem nenhuma proteção, liberando poeira e poluentes diretamente para o ar e para o solo”, alerta Valdênia, ressaltando a responsabilidade das empresas na degradação do meio ambiente local e na saúde da população de Piquiá de Baixo.

Valdênia Paulino Lanfranchi em seminário sobre impactos da mineração nas comunidades do Corredor Carajás, no Maranhão e Pará.
Foto: José Carlos Almeida.
Valdênia Paulino Lanfranchi durante assembleia de moradores em Piquiá de Baixo.
Foto: José Carlos Almeida.